Carne Bovina, Bancos e a Amazônia Brasileira

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A preservação das florestas tropicais é fundamental para ajudar a interromper a degradação do clima e proteger as comunidades locais e os povos indígenas que dependem dessas florestas e as defendem. Além disso, a pandemia de Covid-19 destacou a importância de preservar os hotspots de biodiversidade, como a Amazônia, para prevenir a propagação de zoonoses.

O fim da destruição de florestas tropicais e sua conversão em pastagens para a produção de carne bovina poderia reduzir as emissões de carbono da agropecuária brasileira em 69%, desacelerar a sexta extinção em massa de espécies e manter um dreno de carbono crucial para evitar o aquecimento de nosso clima.

Mas, como revela nossa nova investigação, os atores de uma cadeia que inclui pecuaristas, empresas multinacionais de carne bovina, instituições financeiras internacionais, supermercados, redes de fast food e os governos que os regulam estão destruindo florestas tropicais ou são cúmplices dessa destruição, com o aval de auditorias repletas de falhas realizadas por auditores norte-americanos e europeus.

Novas provas mostram que as principais empresas brasileiras de carne bovina – JBS, Marfrig e Minerva – não conseguem evitar que vastas áreas desmatadas na Amazônia façam parte de suas cadeias produtivas, fato não identificado pelas auditorias feitas por DNV-GL e Grant Thornton. Enquanto isso, grandes bancos como Barclays, Morgan Stanley e Santander continuam apoiando as gigantes da carne bovina, apesar dos muitos alertas sobre seus problemas. Lojas e marcas famosas como Burger King, Sainsbury’s, Subway, McDonald’s, Walmart, Carrefour e Nestlé também são clientes recentes dessas empresas.

Parte dessa devastação também envolve graves violações dos direitos humanos de povos indígenas e ativistas do direito à terra.

Nossas revelações mostram como um setor privado não regulado, com políticas voluntárias de desmatamento zero, foi incapaz de evitar a destruição da floresta e pode contribuir para o fim definitivo do ecossistema amazônico. Esse cenário se agrava quando consideramos a alarmante escalada de desmatamento na Amazônia nos últimos anos, com o governo brasileiro relaxando a aplicação das leis florestais e as exigências de prestação de contas. 

Se os governos não tomarem medidas urgentes para enfrentar essas questões e responsabilizar as empresas de seus países, a maior floresta tropical do mundo pode chegar a um ponto de inflexão irreversível, que deve destruir sua ecologia, acelerar o colapso do clima e ameaçar as comunidades que vivem nela e dela dependem.

Todas as empresas de carne bovina, bancos e auditores apresentados no relatório foram procurados para comentários.

Principais descobertas

  • Em apenas um estado da Amazônia, em três anos, as gigantes da carne JBS, Marfrig e Minerva compraram gado de 379 fazendas com 20.000 campos de futebol de desmatamento ilegal.
  • As empresas também não foram capazes de monitorar 4.000 fazendas de fornecedores indiretos  envolvidas em suas cadeias produtivas, com um total estimado de 140.000 campos de futebol desmatados, para evitar que gado dessas fazendas chegasse a seus frigoríficos.
  • Esse desmatamento ilegal contraria as promessas públicas de  desmatamento zero das gigantes da carne e seus termos de ajuste de conduta com o Ministério Público.
  • Estudos de caso originais também mostram como as empresas de carne bovina não pararam de comprar gado de pecuaristas acusados por autoridades brasileiras de grilagem de terras e violações dos direitos humanos de povos indígenas e ativistas do direito à terra.
  • Auditorias repletas de falhas feitas pelas empresas internacionais de auditoria DNV-GL e Grant Thornton alegaram conformidade com as promessas das empresas, desconsiderando o grande número de compras feitas de fazendas com áreas desmatadas.
  • Instituições financeiras mundialmente famosas como Deutsche Bank, Santander, Barclays, BNP Paribas, ING e HSBC continuam financiando essas empresas, apesar dos muitos alertas sobre seus problemas.

Gigantes da Carne do Brasil

JBS, Marfrig e Minerva são as três maiores empresas de carne bovina do Brasil. Só em 2017, juntas elas abateram mais de 18 milhões de cabeças de gado. Elas representam mais de 40% da capacidade de abate na Amazônia e 64% do total das exportações brasileiras de carne bovina para mercados como UE, EUA e China. É um negócio muito lucrativo, em que o lucro bruto combinado dessas empresas em 2019 foi de mais de US$ 7 bilhões.

Em vez de criar seu próprio gado, essas empresas compram bois de milhares de fazendas independentes. Se quisessem, as três gigantes poderiam usar seu poder de compra para exigir práticas ambientalmente responsáveis de seus fornecedores. Em vez disso, como mostra nossa investigação, elas estão ligadas a enormes áreas de desmatamento ilegal, enquanto atores em toda a cadeia produtiva lucram com a destruição da Amazônia.

Estima-se que 70% das terras desmatadas na Amazônia brasileira estejam agora ocupadas com gado, levando o Brasil a ter o segundo maior rebanho do mundo. Existem mais bois no Brasil do que pessoas, e 40% desses bois estão na Amazônia, onde são criados, comprados e vendidos por cerca de 390.000 fazendas.

Sozinha, a produção de carne bovina no Brasil é considerada a principal causa das emissões provenientes de desmatamento na América Latina. Entre 2002 e 2018, o World Resources Institute calcula que mais de 20 milhões de hectares de floresta tropical primária foram perdidos na Amazônia brasileira. Essa destruição é equivalente a uma floresta quase do tamanho do Reino Unido, com milhões de anos, desmatada em apenas 16 anos.

Incêndios florestais que acompanham o desmatamento continuam devastando a Amazônia em velocidade recorde, com um aumento de 25% até agora em relação ao mesmo período de 2019.

Na ausência de leis adequadas em países consumidores e centros financeiros como Europa e Estados Unidos, bancos, investidores, agências de classificação de crédito, importadores e supermercados podem continuar ganhando dinheiro com o desmatamento predatório sem enfrentar qualquer consequência. Isso precisa mudar.

Recomendações

  • Os governos devem aprovar leis exigindo que as empresas, incluindo instituições financeiras, que usam ou financiam commodities de risco florestal identifiquem, evitem, mitiguem e denunciem riscos de desmatamento.

  • JBS, Marfrig e Minerva devem assegurar dados completos, acessíveis e publicamente disponíveis sobre sua cadeia produtiva, de modo a permitir um escrutínio independente – inclusive pela sociedade civil. Elas também devem ter um plano melhor para remover fornecedores indiretos de suas cadeias produtivas e exigir que todos os seus fornecedores comprovem que suas operações cumprem com o Código Florestal brasileiro.

  • Os atores financeiros, importadores e supermercados que lidam com essas empresas devem suspender imediatamente quaisquer negócios com elas até que sejam criadas as condições mínimas para uma due diligence básica, incluindo total transparência na cadeia produtiva dessas empresas. Além disso, devem adotar uma política de tolerância zero em relação a ameaças e ataques a defensores do meio ambiente e dos direitos humanos.

  • A DNV-GL e a Grant Thornton devem investigar e compartilhar publicamente por que suas auditorias de JBS, Marfrig e Minerva falharam em identificar os casos revelados neste relatório.

  • O Governo Federal do Brasil deve reverter o recente corte de verbas dos órgãos de fiscalização e proteção florestal e aplicar o Código Florestal brasileiro em sua integridade.

  • O Governo Federal do Brasil deve garantir que dados independentes e publicamente disponíveis que rastreiam o ciclo de vida do gado sejam facilmente acessíveis, como as guias de transporte animal que mostram de quais fazendas as empresas de carne compram.


Quando instadas a comentar, as empresas de carne bovina justificaram as compras dessas fazendas e negaram qualquer irregularidade, o que a Global Witness, por sua vez, contestou (veja o relatório completo para mais detalhes). Os pecuaristas em questão também negaram as acusações.

Em resposta às nossas revelações, DNV-GL e Grant Thornton alegaram que restrições durante as auditorias podem tê-las impedido de investigar os casos encontrados pela Global Witness (veja o relatório para mais detalhes). Quando questionados sobre o assunto, todos os bancos mencionados no relatório defenderam seu relacionamento financeiro com as empresas de carne bovina.