Press release / Nov. 12, 2019

Grandes frigoríficos e os bancos que os financiam devem fazer mais para impedir a destruição da Amazônia, diz grupo após novos resultados

Novos resultados divulgados pelo Ministério Público Federal no estado do Pará, sugerem que grandes frigoríficos como JBS e Minerva poderiam estar fazendo mais para conter o desmatamento destrutivo na Amazônia.

  • Este ano deve ser um dos piores anos para o desmatamento na Amazônia desde o recorde de 2012, provavelmente atingindo uma área equivalente a 800.000 campos de futebol, com o setor pecuário como um dos principais impulsionadores dessa destruição florestal - impactando também milhões de pessoas, lares e meios de subsistência.
  • À luz dos resultados, a ONG ambiental Global Witness pede que empresas como JBS e Minerva façam mais para libertar suas cadeias de produtos provenientes de áreas de desmatamento; que seus financiadores internacionais, como Deutsche Bank e Bank of America, tomem medidas imediatas; e que os governos regulem esses investimentos usando as devidas diligências de forma obrigatória.

Terça, 12 de novembro de 2019 – Hoje, em Belém do Pará, o Ministério Público Federal (MPF) do Pará divulgou novos dados que mostram quantos dos frigoríficos que impulsionam o comércio de gado na região continuam ligados à destruição da Amazônia. A ONG internacional Global Witness vê com bons olhos os esforços do MPF no monitoramento da situação, mas afirma que esses dados mostram apenas parte da história.

Em Belém, nesta manhã, o MPF destacou que algumas melhorias de grandes frigoríficos como JBS e Minerva foram feitas, mas afirmou que o caminho para interromper suas contribuições para a disseminada e acelerada destruição da Amazônia está só começando.

Presente na reunião, a ONG ambiental e anticorrupção Global Witness ressaltou o quão crítico é o fato de os resultados não terem gerado mais repercussão e que é vital que as duas empresas - que há muito tempo têm sido expostas pela sociedade civil brasileira por falharem em suas promessas de desmatamento zero - não fiquem fora do debate público a respeito do assunto.

A entidade também criticou bancos e investidores internacionais por não realizarem a devida diligência,  mantendo um fluxo contínuo de dinheiro tanto para empresas como JBS e Minerva, como para um de  seus principais concorrentes, Marfrig - apesar da incapacidade persistente desses frigoríficos de cumprir seus compromissos de zero desmatamento.

Os representantes da Global Witness também ressaltaram o quanto é crítico o impacto causado pelo desmatamento, tanto para as pessoas como para o planeta, com as comunidades que vivem na Amazônia sendo uma das mais afetadas por sua destruição contínua. Os defensores do meio ambiente, ainda conforme a ONG, relatam que a proteção da Amazônia é crucial para as comunidades indígenas que dependem dela, para as florestas e para o clima.

Para Mariana Abreu, investigadora da Global Witness, frigoríficos como JBS e Minerva estarão ansiosos para dizer como essas auditorias destacam seus bons desempenhos - mas as novas estatísticas contam apenas parte da história quando se trata da destruição da Amazônia. “Agora precisamos de garantias claras dessas empresas - que há muito tempo são expostas pela sociedade civil brasileira por falharem em suas promessas de desmatamento zero - de que elas estão adotando ações adicionais e muito mais abrangentes para remover o desmatamento de suas cadeias de suprimentos”, afirma.

Abreu defende que o Ministério Público Federal (MPF) não assuma todo o ônus por expor o problema. “Enquanto os bancos e investidores globais que financiam essas empresas fecharem os olhos, os frigoríficos receberão a mensagem clara de que ninguém vai olhar muito de perto a lacuna entre seus compromissos de desmatamento zero e o que eles fazem no dia-a-dia quando compram gado na região amazônica”, endossa.

Ela ainda lembra que, apesar das evidências de que essas empresas não mantêm o controle adequado de suas cadeias de suprimentos e, portanto, “são incapazes de provar que são livres de desmatamento, a JBS e a Minerva continuam sendo apoiadas por nomes famosos em finanças, incluindo Black Rock, Deutsche Bank e Bank of América, que não fazem perguntas suficientes sobre a ligação desses frigoríficos com o desmatamento”.

A ONG avalia que os dados do MPF, apesar de representarem um passo na direção certa, contemplam apenas pouco mais da metade dos maiores fazendeiros que forneciam diretamente à JBS e Minerva. Segundo a entidade, ainda existem muitos lugares onde o desmatamento não está sendo colocado no mapa, como nos casos de fornecedores indiretos já que, em muitos casos, os animais passam por várias fazendas antes do abate.

A Global Witness afirma que os auditores nem olham para as partes mais vulneráveis ​​da cadeia de suprimentos e, portanto, não há como os frigoríficos como JBS e Minerva dizerem que suas cadeias de suprimentos são livres de desmatamento.

Os resultados das auditorias do órgão ministerial seguem a tônica das revelações feitas pela Global Witness no relatório Money to Burn, que sugere que alguns dos maiores nomes das finanças globais - Barclays, Deutsche Bank, HSBC, Santander e Standard Chartered, entre outros - forneceram dezenas de bilhões de dólares em financiamento entre 2013 e 2019 para empresas que, direta ou indiretamente, desmatam as maiores florestas tropicais do mundo.

“A resposta para isso? As instituições que permitem que o dinheiro seja injetado em empresas como JBS e Minerva devem assumir a responsabilidade e os governos internacionais devem responsabilizá-las pedindo uma regulamentação mais forte, com as devidas diligências. Isso é fundamental se quisermos parar a destruição acelerada da Amazônia brasileira, nosso clima e danos às comunidades que vivem e dependem desta floresta crucial”, finalizou Mariana Abreu.

Diante dos dados apresentados nesta terça-feira, a Global Witness faz os seguintes apontamentos:

  1. Os principais compromissos governamentais e do setor privado sobre o desmatamento estabelecem metas a serem alcançadas até 2020, tornando esse um ano crítico para as florestas. Todos os atores devem aproveitar a oportunidade para renovar e fortalecer seus esforços para combater o desmatamento comprometendo-se com planos de ação com prazo determinado, que podem ser verificados ​​de forma independente e divulgados publicamente para garantir a prestação de contas.
  2. Os governos precisam regular o setor financeiro para interromper o financiamento e o investimento no desmatamento. Esse regulamento deve incluir, entre outras medidas possíveis, as devidas diligências obrigatórias, exigindo que os investidores e o setor financeiro identifiquem, previnam e mitiguem riscos e impactos ambientais, sociais (incluindo direitos humanos) e de governança.
  3. As abordagens regulatórias também devem permitir que as comunidades tradicionais mantenham seus direitos e assegurar que as instituições financeiras não manejem quaisquer recursos provenientes de crimes relacionados à floresta e às violações de direitos humanos relacionados.
  4. Todos os financiadores ou investidores da JBS, Marfrig e Minerva devem iniciar uma investigação imediata sobre como o fornecimento de cabeças de gado, por meio de fornecedores indiretos,  passou por seus processos internos de diligência.
  5. Financiadores, investidores e outras pessoas do setor financeiro precisam: comprometer-se com uma política livre de desmatamento e de apropriação áreas florestais. Isso deve incluir um compromisso com o desmatamento zero e a exploração zero, incluindo o respeito ao princípio do Consentimento Livre, Prévio e Informado das comunidades locais por todas as atividades que afetem a elas e a seus direitos. 

/ ENDS

Notes to editor:

  1. Entrevistas em inglês com representantes da Global Witness podem ser solicitadas pelo e-mail [email protected]. Para agendar entrevistas em português o e-mail, é: [email protected] ou pelo telefone  +55 (11) 9 9947 0655.
  2. Mais detalhes sobre defensores da terra e do meio ambiente que sofrem ataques na Amazônia também estão disponíveis mediante solicitação. Entre em contato com [email protected].
  3. O relatório completo 'Money to Burn', que analisa quais instituições financeiras internacionais estão financiando a destruição de florestas, pode ser encontrado aqui (em inglês).
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