Petrobras headquarters, Brazil. Credit: Getty

Amizades escusas

As duas principais traders de commodities do mundo usaram operadores famosos por seu papel no gigantesco escândalo de corrupção da Lava Jato, nossa investigação com a Public Eye, da Suíça, revela.

As duas principais traders de commodities do mundo usaram operadores famosos por seu papel no gigantesco escândalo de corrupção da Lava Jato, nossa investigação com a Public Eye, da Suíça, revela. Documentos judiciais, ainda não relatados, apresentam a Trafigura, a terceira maior trader do mundo, em negociações com outro operador envolvido na Lava Jato, agora tão notável que é conhecido como o “Decano das Propinas".

Amaral

O político desavergonhado Delcidio do Amaral foi um dos primeiros a alegar uma fraude na fixação de preços do petróleo na Petrobras. Crédito: Getty Images/Andressa Anholete

As gigantes corporativas Glencore, Vitol e Trafigura registram um volume de negócios conjunto superior a meio trilhão de dólares - superior ao GDP da Áustria - e exercem enorme poder sobre o comércio mundial de matérias-primas. Seja o trigo do nosso pão, o combustível dos nossos carros ou a fiação de nossas torradeiras, é bem provável que qualquer um deles tenha sido comercializado por essas traders de commodities.

 

Mas todas as três causaram polêmica devido a alegações de corrupção, ligações com governos repugnantes e abusos ambientais. Investigações anteriores produzidas pela Global Witness e pela Public Eye destacaram o uso de operadores corruptos pelas traders de commodities em grandes contratos de mineração e petróleo.

A nossa investigação levanta novas questões sobre a probidade das três principais traders de commodities, no que toca aos operadores por elas escolhidos. O alegado papel criminoso dos intermediários na Lava Jato emergiu após as negociações com as traders de commodities detalhadas neste relatório.

Para produzir esta investigação, a Global Witness vasculhou centenas de documentos judiciais da Lava Jato a fim de revelar fatos não relatados anteriormente e conversou com fontes relevantes em todo o Brasil.

A Global Witness constatou o seguinte:

    ·       O agente da Vitol para os contratos brasileiros de petróleo teve um papel decisivo em um grupoque, conforme documentos judiciais, foi  responsável por ter elaborado vários esquemas de corrupção com a colaboração de funcionários da Petrobras. A Vitol pagou-lhe através de uma empresa offshore central para as operações desse grupo.

    ·       A Glencore fez negócio com outro intermediário que pertencia a esse mesmo grupo. A Glencore fez um acordo com o operador relativo  a compra de uma carga de óleo combustível da Petrobras, admitiu a trader de commodities.

    ·       Uma subsidiária da Glencore pagou pelo menos US $ 2,1 milhões a uma dupla de pai e filho, alegados facilitadores de corrupção. A Glencore diz que envolveu os dois como corretores legítimos e nega que tenha havido irregularidade. Porém, um relatório financeiro preparado para um diretor do alto escalão da Petrobras lista milhares de dólares devidos como pagamento de propina vindo de um contrato com a “Trading Glencore”, presumidamente pago pelos facilitadores.

    ·       A Trafigura é alvo de uma investigação policial no Brasil, informou a Petrobras à Global Witness. A Trafigura e a Polícia Federal não quiseram comentar.

    ·       Duas das figuras centrais no escândalo da Lava Jato – incluindo o “Decano das Propinas” – trocaram mensagens sobre como distribuir pagamentos de propina por um contrato de petróleo proposto pela Trafigura no valor de US $ 2 bilhões, conforme documentos judiciais. A Trafigura admite ter proposto o contrato malsucedido com a Petrobras, mas negou que tenha “contratado” o Decano, que atualmente cumpre sentença de 13 anos por crime de corrupção.

    Em correspondência com a Global Witness, a Glencore e a Vitol admitiram ter feito negócios com os intermediários apresentados em nosso relatório. Elas negaram qualquer ilegalidade ou conhecimento que os intermediários estivessem envolvidos em atividades ilegais na época. Mas a contratação de profissionais corruptores e envolvidos em lavagem de dinheiro é um grande sinal de corrupção.

    Probe

    Uma investigação sobre o possível papel da Glencore e da Trafigura na Lava Jato foi lançada já em 2016. Os procuradores dizem que ainda pode dar frutos

    A Trafigura foi a única das três empresas que não forneceu uma resposta clara sobre se negociou com qualquer um dos intermediários. A Trafigura diz em seu site que “a transparência é indispensável em nossa jornada de responsabilidade corporativa”. A empresa também declarou seu apoio à Iniciativa de Transparência das Indústrias Extrativas, o órgão de referência no combate à corrupção nos setores do petróleo e da mineração. Este ano, a Trafigura nomeou o presidente de longa data da ITIE como seu principal porta-voz.

    A Global Witness está apelando o Reino Unido e seus territórios ultramarinos, os EUA e a Suíça, para iniciar investigações sobre a atuação das traders de commodities no Brasil, a fim de determinar se propinas foram pagas para garantir contratos de petróleo. Essas jurisdições são os locais de suas principais operações comerciais, sedes, contas bancárias e registros (ver box: links do Reino Unido, EUA e Suíça). A Polícia Federal e a força-tarefa da Lava Jato - uma equipe do Ministério Público Federal - já estão investigando os intermediários e seus negócios.

    The ‘Deacon of Bribes’ Jorge Luz and his son Bruno. Their tentacles were in almost every corrupt deal studied by Global Witness

    O “Decano das Propinas” Jorge Luz e seu filho Bruno. Seus tentáculos estavam em quase todos os acordos corruptos examinados pela Global Witness. 

    Todos esses contratos vieram à tona como parte do escândalo da Lava Jato, que transformou a economia do país, políticos e a estatal petroleira Petrobras após emergir em 2014. O ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva foi preso associado ao escândalo e o atual presidente Temer foi investigado; no total, cerca de 20 partidos políticos foram implicados e vários proeminentes empresários do país foram colocados atrás das grades.

    No dia 28 de outubro, os brasileiros elegeram o ex-paraquedista do exército Jair Bolsonaro como seu novo presidente, um homem que elogiou repetidas vezes a ditadura militar ocorrida entre 1964 e 1985 no país. Apesar de ter passado mais de uma década no Congresso como membro do Partido Progressista (que foi fortemente implicado no escândalo da Lava Jato), Bolsonaro se candidatou à presidência como a opção antissistema.

    Embora tenha prometido acabar com a corrupção, Bolsonaro pode vir a minar o equilíbrio entre os diferentes poderes que restringe abusos no sistema brasileiro. Ele disse recentemente que, se for eleito, “dará fim ao ativismo no Brasil", e seus rivais políticos - incluindo os do PT - “ou vão para fora ou vão para a cadeia”.

    Lava Jato – o escândalo brasileiro

    Então, o que foi a Lava Jato? Em 2014, durante uma investigação de lavagem de dinheiro em uma casa de câmbio dentro de um posto de gasolina, a polícia descobriu um esquema de corrupção na Petrobras. Cerca de 28 grandes corporações pagaram propinas a diretores da Petrobras em troca de contratos de infraestrutura. Pelo menos £1,4 bilhão foram retiradas da empresa estatal. Grande parte do dinheiro fornecia fundos para uma multidão de partidos políticos brasileiros, mantendo as coalizões de governo, de outro modo instáveis.  Empresas de propriedade anônima em paraísos fiscais e contas bancárias estrangeiras ajudaram a lavar o dinheiro. Só um diretor da Petrobras canalizou 20 milhões de euros para bancos em Mônaco a partir de contas nas Bahamas, no Panamá e em outros lugares.

    Cash

    Quando a polícia invadiu a casa do político Cândido Vaccarezza, encontraram R$ 122.000 em dinheiro

    Grande parte do dinheiro fornecia fundos para uma multidão de partidos políticos brasileiros, mantendo as coalizões de governo, de outro modo instáveis.  Empresas de propriedade anônima em paraísos fiscais e contas bancárias estrangeiras ajudaram a lavar o dinheiro. Só um diretor da Petrobras canalizou 20 milhões de euros para bancos em Mônaco a partir de contas nas Bahamas, no Panamá e em outros lugares.

    Tanta perturbação, com bilhões de investimentos reduzidos, ajudou a provocar a pior recessão registrada no Brasil, com a economia encolhendo quase 4% em 2015 e 2016.

    O foco dos investigadores da Lava Jato até agora tem sido nos contratos da Petrobras com empreiteiras, e pouca atenção foi dada ao comércio de petróleo. O Brasil é o nono maior produtor de petróleo do mundo, atrás dos Emirados Árabes Unidos e uma posição à frente do Kuwait. O país possui a segunda maior reserva de petróleo bruto da América do Sul, depois da Venezuela. O Brasil é também a nona maior economia do mundo, com 207 milhões de pessoas e um número crescente de veículos a gasolina (mais de 90 milhões).

    O comércio de petróleo do Brasil: "um quadro de ilicitude"

    Além de produzir 2,1 milhões de barris diários de petróleo, o Brasil também importa bilhões de dólares em combustível e petróleo bruto “leve”, que é necessário para suas refinarias. Isso faz do país um oásis para as empresas de comercialização de petróleo, que lidam com a logística de importação e exportação.

    Os dados falam por si. Documentos judiciais mostram que entre 2003 e 2015 a Vitol fez negócios no valor de pelo menos US $ 12,2 bilhões no Brasil e a Trafigura, US $ 8,9 bilhões.

    O interesse da Global Witness nessas negociações foi despertado por algumas declarações surpreendentes nas delações premiadas de dois dos principais executivos da Petrobras:

    Reporters

    Repórteres da Global Witness localizaram Nestor Cerveró em um sítio afastado escondido na Mata Atlântica do sudeste do Brasil

      ·       Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras, condenado a 32 anos em prisão domiciliar por lavagem de mais de um milhão de dólares em propinas;

      ·       e Delcídio do Amaral, ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras, que se tornou o líder do PT no Senado — antes de ser humilhantemente destituído do cargo por meio de votação após sua prisão em novembro de 2015 relacionada à Lava Jato.

      Amaral disse em declaração de fevereiro de 2016 que a Diretoria de Abastecimento era “uma das áreas mais cobiçadas da Petrobras, principalmente em razão da comercialização de petróleo no exterior”. Ele descreveu o comércio diário de centenas de milhares de barris de petróleo bruto leve como um “quadro de ilicitude”. “Pequenas variações no preço do petróleo representam altos ganhos aos principais operadores, dando azo a um terreno fértil para várias ilicitudes, vez que os preços podem ser alterados artificialmente”, continuou ele. As operações financeiras são todas feitas em Londres por meio de “brokers”, segundo Amaral.

      "Interferência política"

      A delação premiada de Cerveró no mês anterior reiterou essas alegações e elevou o papel executado pelas traders de commodities. Ele disse que os negócios ilícitos da Petrobras se referem ao comércio de combustível também.

       Afirmou que “essa comercialização é feita principalmente através das companhias de comercialização, ou trading companies. As maiores tradings são a Glencore e a Trafigura.”

      "O volume negociado é muito grande e, nesse volume, os centavos das negociações diárias podem render milhões de dólares ao final do mês em propina".

      "Sempre houve algum tipo de ingerência política na atuação da área de trading", disse. Cerveró também afirmou que o comércio de petróleo e de seus derivados era realizado através da Diretoria de Abastecimento, que tinha considerável liberdade, já que o conselho de administração não precisava aprovar tais contratos.

      O diretor de Abastecimento era Paulo Roberto Costa, que se tornou infame depois de admitir ter recebido dezenas de milhões de dólares em propinas, em uma delação premiada que tornou a investigação da Lava Jato gigantesca. Uma importante fonte da Polícia Federal disse à Global Witness que, quando fizeram buscas na casa de Costa, todos os móveis tinham cavidades para guardar dinheiro. Desde então, ele foi condenado a 12 anos por recebimento de propinas para contratos de construção de refinarias.

      Nestor Cervero

      Nestor Cerveró detalhou como a manipulação dos preços do petróleo poderia gerar muita propina. Crédito: Getty Images/Evaristo Sa

      Os investigadores da Global Witness empenharam-se muito para falar com Amaral e Cerveró a respeito de seus testemunhos. Amaral mora na cidade de Campo Grande (MS), onde os nossos investigadores passaram quatro dias à espera de uma entrevista que nunca se concretizou. Os investigadores também acompanharam Cerveró até uma remota fazenda na floresta atlântica de Itaipava, no sudeste do Brasil, onde ele está sob prisão domiciliar. Falando pelo interfone, ele se recusou a responder perguntas além do que constava em seu depoimento sobre a Trafigura e a Glencore.

      Em agosto de 2016, a polícia abriu uma investigaçãosobre as personalidades da Petrobras citadas nas delações, juntamente com a Trafigura e a Glencore, cobrindo suas atividades de 2004 a 2012, conforme um documento policial que vazou. O documento diz que a polícia estava investigando possíveis crimes cometidos por vários funcionários e empresários da Petrobras, “além das empresas multinacionais Trafigura e Glencore, contratadas da Petrobras". Os funcionários públicos “teriam intermediado e recebido vantagens indevidas pagas pelas citadas empresas multinacionais, em data inicial possivelmente anterior ao ano de 2004 e que se seguiu possivelmente até 2012” no âmbito da Lava Jato.

       A Glencore declarou que “não tem conhecimento de qualquer investigação sobre a Glencore relacionada ao Brasil” e nunca foi contatada sobre qualquer investigação desse tipo. E acrescentou: “O documento parece mencionar a Glencore no contexto da abertura de uma investigação sobre os três indivíduos, e não sobre a Glencore.” A Polícia Federal não quis comentar se a investigação de dois anos ainda estava em andamento.

      As novas descobertas da Global Witness aumentam as preocupações sobre os riscos de corrupção, uma vez que as três principais traders de commodities encontram-se sob investigação. Em março deste ano, o truste da empresa estatal de petróleo da Venezuela processou a Glencore, a Vitol e a Trafigura e outras empresas por corrupção e uso de informação privilegiada, alegando que elas espoliaram US $ 5,2 bilhões da empresa manipulando fraudulentamente as licitações de petróleo. Em julho, o preço das ações da Glencore caiu 12% em um dia, devido a notícias de uma investigação dos EUA sobre alegada prática de lavagem de dinheiro e corrupção na República Democrática do Congo, Nigéria e Venezuela. As empresas de commodities negam qualquer irregularidade.

      Das três, a maior trader de petróleo é a Vitol.

      Pagamentos da Vitol ao "agente" sueco e a suspeito de lavagem de dinheiro

      Senhores da guerra, ditadores e rebeldes ... e um pilar do establishment britânico

      Com um faturamento de US $ 181 bilhões, a Vitol movimenta diariamente mais de sete milhões de barris de petróleo e derivados — o suficiente para abastecer Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Sob a liderança de Ian Taylor - CEO de 1995 até este ano, antes de se tornar presidente do conselho - o valor da Vitol aumentou em 3.500%.

      Taylor, que é um financiador do Partido Conservador britânico e presidente da Royal Opera House, confere credenciais de establishment à Vitol. Ele aprimorou a imagem da Vitol ao falar publicamente sobre “comportamento corporativo responsável” . Mas a empresa muitas vezes atrai a atenção pelas razões erradas, seja por meio de contratos com intermediários corruptos na Nigéria, no Congo-Brazzaville ou  no Iraque de Saddam Hussein, ou por  seus pagamentos a um chefe de milícia sérvio  e  um acordo de bilhões de dólares com rebeldes líbios*.

      Os negócios brasileiros da empresa agora aumentam as controvérsias.

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      O agente Ljungberg: O homem da Vitol no Brasil foi presumidamente uma peça-chave no corrupto grupo Brasil Trade

      A Global Witness descobriu que a Vitol e uma de suas subsidiárias contrataram não apenas um, mas dois intermediários cujo envolvimento no escândalo da Lava Jato agora está detalhado em extensas provas judiciais.

      O primeiro deles foi Bo Ljungberg, um empresário sueco que morou no Rio de Janeiro, e cuja fotografia sorridente e impressão digital fazem parte de um dossiê compilado pelos procuradores da Lava Jato. Em agosto de 2017, a Polícia Federal fez uma busca na casa de Ljungberg e apreendeu laptops, telefones e um iPad.

      A Vitol admitiu à Global Witness: “O Sr. Ljungberg atuou como agente da Vitol.”

      Pressionada pela Global Witness, admitiu que pagou a Ljungberg em 2011 e 2012 “como consultor, para apoiar a Vitol na identificação de oportunidades de negócios de petróleo no Brasil e para auxiliar nos aspectos operacionais das transações”. Ele foi pago "através de uma empresa da qual ele era o único proprietário, a Encom Trading SA". A Vitol não disse quanto ele ganhou.

      A Vitol havia conduzido “os habituais processos de diligência prévia”, tanto em Ljungberg quanto na Encom, dizendo que eles não apresentaram “qualquer preocupação”.

      Loya

      O executivo da Vitol, Mike Loya, na foto, conheceu o alegado facilitador de propinas Bo Ljungberg, em Houston. Crédito: Getty Images/Bloomberg

      "Se tivesse havido, a Vitol não teria entrado no acordo."

      Pen drive com conteúdo explosivo

      Como veremos, Ljungberg fazia parte de um grupo que supostamente conspirou em vários esquemas corruptos, conforme documentos judiciais. E-mails e documentos encontrados pela Polícia Federal, em análise forense pormenorizada, estabeleceram o papel central da Encom nos esquemas de propina da Lava Jato.

       Tudo começou com um pen drive.

      Em julho de 2015, a polícia do Rio prendeu um almirante da reserva por executar um enorme esquema de corrupção relativo a um reator nuclear. Entre os materiais apreendidos em sua casa havia um pen drive contendo documentos bombásticos, incluindo capturas de tela de uma conta do Gmail com o endereço [email protected]. Oito usuários tinham acesso a ela. Nenhum e-mail foi realmente enviado da conta. Em vez disso, os usuários salvavam as mensagens na pasta de rascunhos para outras pessoas visualizarem — uma aparente medida de segurança. Essa rede criminosa foi referida pela polícia brasileira como o grupo “Brasil Trade”.

      Em agosto de 2018, a força-tarefa da Lava Jato apresentou uma série de acusações contra membros e associados da Brasil Trade, dez pessoas no total. Eles foram acusados de terem se associado “com a finalidade de praticar crimes contra a administração pública, e em detrimento da Petrobras, notadamente, corrupção ativa” entre fevereiro de 2010 e julho de 2012. O próprio Ljungberg – o homem da Vitol no Brasil – foi acusado de formação de quadrilha, prática de corrupção e lavagem de dinheiro. O caso ainda está para ser julgado, e Ljungberg – que agora vive na Suécia – não tinha apresentado defesa até o momento desta publicação.

      Sua santidade e seu facilitador político

      Paulo

      As confissões de Paulo Roberto Costa tornaram a investigação da Lava Jato gigantesca. Crédito: Getty Images/Brazil Photo Press

      No cerne do casobrasileiro contra o grupo Brasil Trade estava um esquema de corrupção envolvendo a concessão de US $ 180 milhões em contratos de importação de asfalto pela Petrobras entre 2010 e 2014. Este asfalto foi destinado a um grande programa de construção de estradas e infraestrutura. A vendedora era a Sargeant Marine, gigantesca trader de asfalto com sede na Flórida. A força-tarefa e os investigadores policiais detalharam o esquema Sargeant Marine em documentos judiciais, usando evidências do pen drive apreendido.

      As evidências mostram as práticas corruptas de Ljungberg e seus cúmplices na Brasil Trade. Também ilustram o modus operandi da Encom, que recebeu um pagamento do contrato da Sargeant Marine e foi repetidamente apresentada como parceira nos esquemas da Brasil Trade.

      Outro membro importante do grupo Brasil Trade era Jorge Luz, conhecido na mídia brasileira como o Decano das Propinas, e seu filho Bruno Luz. Eles foram condenados a mais de 13 e seis anos, respectivamente, por orquestrar mais de US $ 20 milhões em propinas nos contratos da Petrobras para navios de pesquisa de petróleo (à parte dos esquemas da Brasil Trade). Um procurador da força-tarefa da Lava Jato disse aos jornalistas que “são talvez os maiores operadores [de propinas] na área Internacional da Petrobras” - o que é alguma coisa.

      Candido

       Cândido Vaccarezza foi supostamente o patrocinador político do grupo Brasil Trade. Crédito: FotoArena

      Jorge e Bruno Luz foram fundamentais na obtenção do contrato com a Sargeant Marine. Os emails da oxfordgt mostram a dupla usando seus contatos políticos e da Petrobras para obter dados comerciais confidenciais que ajudaram a suplantar a concorrente da Sargeant Marine e a garantir os contratos para fornecimento de asfalto. Amparado por um dos principais políticos do Brasil – o líder parlamentar do PT, Cândido Vaccarezza - e pelo diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, Bruno Luz conseguiu obter a "fórmula" da Petrobras para a precificação do asfalto, segundo evidências.

      Munida desta informação, a Sargeant Marine poderia oferecer seu produto justamente no valor desejado pela Petrobras. Enquanto isso, o grupo Brasil Trade tiraria uma fatia generosa para si, juntamente com as propinas para funcionários da Petrobras e para políticos cujas mãos precisavam molhar.

      Em um e-mail de 7 de maio de 2010, Ljungberg parabenizou Bruno Luz pela obtenção da fórmula. Bruno respondeu: “É certamente o resultado de nossos esforços, quero dizer, de todos nós. Só precisamos ter paciência, pois tenho certeza de que estamos no caminho certo.” Em seu depoimento à polícia, Ljungberg disse que nunca ouviu falar do grupo Brasil Trade. Ele confirmou ser sócio da Encom, mas negou ter recebido qualquer pagamento pelo contrato com a Sargeant Marine.

      Tapdancing

      Bo Ljungberg escreveu esta mensagem motivacional para seus companheiros conspiradores, a qual parece ter saído diretamente das páginas de um péssimo roteiro Hollywoodiano


      Um mês depois, Ljungberg promoveu uma conversa animadora, dizendo aos seus colegas da Brasil Trade que eles iriam superar a resistência interna dentro da Petrobras. Reflitindo em estilo hollywoodiano, disse: “Nós temos habilidade para fazer isso. É que estamos pisando em calos o tempo todo... A estratégia é dançar; sapatear”. Finalizou: "Precisamos vencer esses caras no jogo deles."

      Repartindo o roubo

      Quando os contratos para fornecimento de asfalto foram garantidos, Jorge e Bruno Luz receberam comissões, em um caso clássico de lavagem de dinheiro: os fundos foram pagos de uma subsidiária da Sargeant Marine em contas na Suíça registradas por empresas de propriedade anônima nas Ilhas Marshall, conforme os documentos judiciais. Jorge e Bruno Luz então dividiram o dinheiro, com Bruno meticulosamente contabilizando os fundos em planilhas com iniciais e codinomes. Uma planilha de agosto de 2010 mostra o faturamento do primeiro contrato da Sargeant Marine sendo dividido, com 40% dos fundos indo para a “Operação” (o grupo Brasil Trade), outros 40% para a “Coordenação” (código para Vaccarezza e outro legislador) e 20% para a “Casa” (o código de Jorge e Bruno para os diretores da Petrobras, neste caso referindo-se apenas a Costa). A decifração dos nomes em código é baseada na análise da polícia e em depoimentos de testemunhas.

      Um quinto da comissão do grupo Brasil Trade (US $ 49.506) foi então para “BO e CH” - Bo Ljungberg e o também suspeito conspirador Carlos Herz. Os registros bancários mostram que eles receberam a comissão na conta suíça do BNP Paribas da empresa de propriedade anônima - com sede nas Ilhas Virgens Britânicas - Encom Trading SA, da qual eram coproprietários. Como dito anteriormente, a Encom também foi a empresa para a qual a Vitol pagou as comissões de Ljungberg, por ser um “agente” para “identificar oportunidades de negócios de petróleo”.

      Ljungberg e Herz deixaram o grupo Brasil Trade após o primeiro negócio com a Sargeant Marine em 2010, de acordo com o depoimento de Bruno Luz.

      Oxford

      Os principais atores foram citados por codinomes neste e-mail secreto que proclamava a excelente relação de Bo Ljungberg com a Vitol

      Nos arquivos do pen drive, a Encom pode ser vista orquestrando uma série de contratos corruptos. Em abril de 2010, o “Decano” Jorge Luz, Herz, o político à frente do grupo Brasil Trade, Cândido Vaccarezza, e um legislador com o codinome V1 encontraram-se com Paulo Roberto Costa em seu escritório no 23º andar da sede da Petrobras de arquitetura brutalista, no Rio de Janeiro. Herz resumiu a reunião na conta de e-mail da oxfordgt, escrevendo que V1 explicou o papel da Encom para Costa: V1 “elaborou uma pauta de negócios e projetos que fossem passíveis de implementação (…) e apresentou a Encom e a mim como a trading e o trader para operacionalizar os negócios”. Esse mesmo e-mail elogiava o “excelente relacionamento” entre Ljungberg e a Vitol, citando o interesse da Encom “em intermediar operações de compra e venda com os grandes players do mercado”.

       De acordo com Herz, Costa argumentou na reunião que as tradings de commodities já tinham negócios diretos com a Petrobras, então “não poderia aceitar ter a Encom como intermediário”. “Jorge Luz discorda”, Herz escreveu. “Ele garante que, se estruturarmos negócios envolvendo as tradings, o PR [Paulo Roberto Costa] endossará.”

      “Tome conta da Vitol”

       

      Na reunião de abril de 2010, Herz propôs vários contratos dos quais a Encom poderia participar. Estes incluíam combustível naval (embarcações); um acordo de óleo combustível com a Argentina envolvendo um intermediário conectado politicamente; diesel boliviano; e por fim as vendas de petróleo de e para o Brasil.

      Um documento de março de 2010 no pen drive intitulado “Trade Brasil” - criado pela secretária de Jorge Luz, conforme os metadados - relata que “V2” (codinome para Vaccarezza, de acordo com os procuradores) pediu para ver as contas da Encom a cada mês. Aspirava declaradamente obter nada menos que 100 milhões de reais (US $ 55 milhões na época) em “apoio” dos negócios da empresa. A análise da Polícia Federal diz: “Além disso, restava evidente a intenção da utilização da empresa Encom Trading para operacionalização da empreitada criminosa.” Vaccarezza nega ser o verdadeiro V2.

      A Vitol apareceu repetidas vezes nos e-mails do Brasil Trade descobertos no pen drive.

      Na reunião de abril no escritório de Costa, Herz escreveu: “Aproveitei para mencionar que a Vitol, através do Mike, não tem objeções de trabalhar conosco no bunker, no pesado, no leve, enfim em todo segmento contanto que a PB sinalize claramente que a Encom é o canal de comercialização. (...) Devemos então ver se conseguimos estruturar negócios com a Vitol”.

      Uma mensagem escrita no verão de 2010 (autor indefinido) declarou: “Já estamos identificando algumas oportunidades com a Vitol (fuel oil)”, acrescentando que eles estavam lidando com um alto funcionário da Petrobras sobre o assunto. Outra mensagem de Carlos Herz de junho de 2010, referindo-se à proposta argentina, dizia: “Sejamos amigáveis com a Vitol.”

      Ian Taylor

      Um pilar do establishment britânico: O presidente da Vitol, Ian Taylor. Crédito: Getty Images/Bloomberg

      Em sua análise, a Polícia Federal escreveu: “Era intenção do GT [membros da conta de email, também conhecidos como Brasil Trade] de participar da compra e venda de petróleo junto à Petrobras utilizando a Encom como intermediária. Jorge Luz queria aproximar os representantes da Vitol.”

      O próximo e-mail sugere que uma reunião entre Ljungberg e Loya foi agendada para acontecer em Houston - onde a Vitol tem sua sede americana - no domingo, 16 de maio de 2010.

      Loya "não lembra"

      Questionada pela Global Witness, a Vitol confirmou que Loya encontrou Ljungberg por volta dessa data, dizendo que eles eram antigos colegas.


      Loya "não se lembra dos detalhes da conversa", disse uma porta-voz da Vitol. "Como presidente da Vitol Inc, Loya não estaria envolvido em discussões sobre possíveis acordos de produtos com a Petrobras", continuou a porta-voz. "Estes seriam tratados pelo setor de produto correspondente." 


      Loya, que nega qualquer irregularidade, contou à Global Witness, a respeito de Ljungberg: “Nos nossos negócios, nunca houve qualquer motivo para eu levantar preocupações.”


      Duas semanas após a reunião, Bruno Luz enviou uma mensagem ao grupo Brasil Trade sobre o potencial negócio da Vitol: “Ful [sic] oil: BO [Ljungberg] ficou de conseguir o valor mínimo com Vitol e MA [outro funcionário da Petrobras] o valor máximo com CAB [gerente sênior de comércio de petróleo da Petrobras].”

      Vitol

      A Vitol comercializa petróleo suficiente todos os dias para atender às necessidades da Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália

      Os procuradores disseram que esta mensagem está relacionada à venda de óleo combustível pela Vitol para a Petrobras. Ljungberg descobriria o preço mínimo de venda da Vitol, enquanto os dois funcionários da Petrobras estabeleceriam o preço máximo de compra da Petrobras.

      “De posse desses dados o GT [ou Brasil Trade] negociava as comissões que seriam distribuídas entre os membros do GT e demais beneficiários (funcionários da Petrobras, políticos, etc.),” escreveram.


      Uma análise feita pela Polícia Federal da mensagem de Bruno Luz apontou que esta era semelhante a um e-mail entre os conspiradores da Brasil Trade a respeito da Sargeant Marine, de apenas um mês antes. Um membro do grupo escreveu: “Vamos ter que nos mexer rápido para conseguir do SIL o preço máximo e formatar nossa oferta tentando capturar também o máximo possível de comissionamento para a Brasil Trade. Já tenho o preço mínimo da SM [Sargeant Marine].”

      Isso sugere que o contrato da Sargeant Marine foi um modelo para o esquema envolvendo a Vitol.

      Watches

      A apreensão policial feita na casa de Cândido Vaccarezza também incluiu uma seleção de relógios de luxo

      O potencial para pagamento de propina e manipulação de preços no acordo proposto pela Vitol era, portanto, extremamente alto. Os dois funcionários da Petrobras foram listados nos arquivos do pen drive como se estivessem recebendo centenas de milhares de dólares em propinas no caso Sargeant Marine e estão entre os denunciados em agosto de 2018. Jorge e Bruno Luz corroboraram esses pagamentos em depoimento, embora os funcionários da Petrobras contestem isso em suas defesas.

       

      A Vitol refuta dizendo que não há provas que a impliquem no pagamento de propina. A empresa realizou diligência prévia em Ljungberg e na Encom, segundo porta-voz.

      “O uso de agentes é comum em nosso setor”, acrescentou ela. “A Vitol não tem conhecimento de qualquer comportamento ilegal ou impróprio em suas negociações com a Petrobras. Nem os documentos fornecidos pela Global Witness demonstram isso.”

      Um advogado de Dan Sargeant, ex-presidente da Sargeant Marine, disse: “Não temos nada a declarar sobre o assunto.” A Sargeant Marine montou uma nova empresa de comércio de asfalto com a Vitol em 2016. Dan Sargeant é o seu diretor executivo.

      Ljungberg alega inocência... mas o Decano abre o bico

      Em seus depoimentos, Ljungberg e Herz negaram qualquer crime, dizendo que não tinham conhecimento sobre a Encom receber fundos do contrato com a Sargeant Marine. Mas eles reconheceram serem os proprietários da Encom e terem se reunido com Jorge e Bruno Luz para discutir possíveis contratos que, segundo eles, nunca se concretizaram.

      Ljungberg disse que nunca usara a conta oxfordgt e só tinha visto Vaccarezza na TV. Herz admitiu ter escrito alguns dos e-mails e estar presente na sede da Petrobras quando Vaccarezza fez lobby por negócios. Ele disse que os negócios que ele discutiu com a Brasil Trade não foram adiante.

      Jorge e Bruno Luz escolheramcolaborar com a polícia. Eles reconheceram seu papel central e explicaram como o esquema de propina funcionou, incluindo as interações do grupo Brasil Trade com os funcionários e políticos da Petrobras. O Decano disse que Ljungberg e Herz faziam parte do grupo Brasil Trade e “receberam [o pagamento pelo contrato com a Sargeant Marine] através da offshore Encom Trading SA”. Bruno Luz disse que Ljungberg teve acesso à conta oxfordgt.

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      Ninguém estava em casa quando a Global Witness visitou o apartamento de Vaccarezza em São Paulo

      O advogado de Vaccarezza disse que ele “nunca intermediou qualquer tipo de negociação entre empresas privadas e a Petrobras”, enquanto o próprio Vaccarezza disse à polícia após sua prisão em agosto de 2017: “Eu não recebi um centavo da Sargeant Marine” ou de Jorge e Bruno Luz. Ele negou estar presente na reunião de abril de 2010 na Petrobras. Vaccarezza foi acusado de crimes de corrupção, juntamente com os outros membros do grupo Brasil Trade, em agosto de 2018.

      Paulo Roberto Costa admitiu à polícia que recebeu centenas de milhares de dólares em pagamentos de propina pelo contrato com a Sargeant Marine em uma conta da Lombard Odier em Genebra.

      Pagamentos da Vitol a lavadores de dinheiro suspeitos da Lava Jato

      O segundo intermediário a receber os fundos da Vitol foi Nelson Martins Ribeiro, acusado pelas autoridades brasileiras de corrupção e de ser um grande lavador de dinheiro como parte do escândalo da Lava Jato. Ele está sendo investigado pela força-tarefa da Lava Jato por lidar com o dinheiro de propina relacionada à Odebrecht, grande grupo de engenharia e construção do Brasil. Quatro empresas offshore ligadas à Odebrecht pagaram regularmente três empresas de Ribeiro registradas nas Ilhas Cayman: a Crown International, a Enterprise Tech Industries e a Apple Capital Corp.

      Cockett

      A Cockett Marine, empresa subsidiária cuja metade pertence à Vitol, fez pagamentos enormes à empresa do lavador de dinheiro Nelson Martins Ribeiro, conforme documentos policiais

      Ribeiro passou os pagamentos para Paulo Roberto Costa alguns dias após o dinheiro chegar em suas contas, disseram os procuradores. Era possível ver o dinheiro entrando e saindo. Entre 2009 e 2012, Costa recebeu dessa maneira cerca de US $ 5,7 milhões.

      O juiz Sergio Moro – responsável pela maioria dos casos da Lava Jato de sua base na cidade de Curitiba - disse que as evidências indicam que Ribeiro “atuaria como intermediador do pagamento de propinas entre empreiteiras e dirigentes da Petrobras”. Entre 2009 e 2012, mais de US $ 190 milhões e € 4,5 milhões passaram pelas contas de Ribeiro, documentos judiciais mostram.

      ‘Origem criminosa’

      Ribeiro ficou preso por dez dias e foi impedido de deixar o Brasil por quase três anos, para que não fugisse. Sua proibição de viajar foi suspensa devido a investigação prolongada, mas ele continua sob investigação. Ele não foi denunciado. O juiz Moro, em uma decisão provisória, disse que as evidências “indicam que se trata de um profissional na lavagem de dinheiro". (Moro agora entregou as rédeas a outro juiz, depois de ter aceitado de maneira controversa o cargo de ministro da Justiça no novo governo de Bolsonaro.)

      Disse: “Utilizando contas secretas em nome de offshores, teria ocultado e dissimulado a natureza e origem criminosa dos recursos, a fim de garantir impunidade aos envolvidos”.

      Ribeiro

      Cerca de 190 milhões de dólares e 4,5 milhões de euros passaram pelas contas do suposto lavador de dinheiro Nelson Martins Ribeiro. Crédito: FotoArena

      Contatado via WhatsApp, Ribeiro disse: “Vou me defender em juízo... tenho certeza de que tudo será esclarecido e que meu envolvimento será finalmente percebido como não existente.”

      Os documentos do tribunal detalhando os pagamentos de Ribeiro também mostram que de fevereiro de 2009 a novembro de 2012, uma chamativa quantia de US $ 8,2 milhões paga pela Cockett Marine - uma trader de combustíveis marítimos parcialmente pertencente à Vitol - acabou em duas dessas empresas offshore de Ribeiro com contas nas Ilhas Cayman: Enterprise Tech Industries e Apple Capital Corp. Cerca de US $ 1,3 milhão foram pagos em 17 parcelas depois que a Vitol adquiriu sua participação na Cockett em julho de 2012.

      A análise da Polícia Federal diz: “Causa estranheza, portanto, a transferência de recursos de grande empresa internacional que mantém contratos bilionários com a Petrobras diretamente em contas offshore de profissional da lavagem de recursos.”

      A Vitol confirmou os valores do pagamento, mas disse que os extratos bancários da Cockett mostraram que eles foram para as empresas chamadas Madison Corporation e Maclaren, que reconheceram estar associadas a Ribeiro. Isso levanta a possibilidade da Maclaren e da Madison terem enviado o dinheiro para outras empresas de Ribeiro.

       A Vitol negou qualquer impropriedade. Um gerente local da Cockett simplesmente contratou uma empresa associada a Ribeiro “para obter moeda local para financiar operações”, disse a Vitol, acrescentando: “Nem Ribeiro nem nenhuma de suas empresas associadas jamais atuaram como intermediários ou representantes da Cockett no que diz respeito à geração de novos negócios com a Petrobras ou outros clientes”.

      Vitol diz ter efetuado diligência prévia antes de comprar metade da Cockett Marine e só ficou ciente dos pagamentos em 2015. Segundo porta-voz da empresa: “A Vitol entende que uma entidade Cockett foi nomeada em conexão com o caso Lava Jato em 2015; a Cockett cooperou totalmente com as autoridades brasileiras, nenhum processo por corrupção foi aberto e o assunto agora é considerado encerrado. A Vitol tem uma política de tolerância zero em relação a pagamento de propina e corrupção”.

      O diretor executivo da Cockett Marine, Cem Halil Saral, disse: "Por favor, notem que nem a Cockett nem qualquer funcionário da Cockett foi denunciado."

      Glencore: pagamentos a intermediários suspeitos de corrupção

      Seguindo as pegadas do "Rei do Petróleo"

      A maior rival da Vitol é a Glencore, que, de sua sede na pacata cidade suíça de Zug, administra um império corporativo com um faturamento de US $ 205 bilhões e uma rede global nas áreas de mineração e petróleo. Foi fundada em 1974 pelo "rei do petróleo" Marc Rich, aquele que revolucionou o comércio de petróleo bruto, mas ganhou notoriedade após as autoridades norte-americanas acusarem-no de violação das sanções ao Irã e fraude. Ele acabou fugindo dos Estados Unidos para se exilar na Suíça.

      A Glencore é hoje a 11ª maior empresa na Bolsa de Valores de Londres, mas está encontrando dificuldades para limpar sua reputação.

      glencore logo

        Os EUA já estão investigando as negociações questionáveis da Glencore na República Democrática do Congo

      Como a Vitol, a Glencore também pagou intermediários agora profundamente implicados no escândalo da Lava Jato. A Global Witness descobriu que a Glencore fez um acordo com outro membro do grupo Brasil Trade: Luiz Eduardo Andrade; Ledu, para os amigos.

       A Glencore também fez mais de 600 pagamentos para uma empresa chamada Seaview Shipbroking, para intermediar negócios de combustíveis marítimos. A dupla de pai e filho que comanda a Seaview estava por trás de um sistema altamente lucrativo de pagamento de propinas e informações privilegiadas para contratos de frete marítimo para outros clientes, de acordo com documentos apresentadospelos procuradores federais.

      Ledu: intermediário no acordo de petróleo da Glencore

      Luiz Eduardo Andrade foi mais uma das dez pessoas denunciadas no caso da Sargeant Marine. Andrade - ex-trader de Marc Rich - foi representante brasileiro da Sargeant Marine e membro do grupo Brasil Trade. Ele foi acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Andrade não tinha apresentado defesa até o momento desta publicação.

      Os e-mails de Andrade são muito elucidativos. Eles o mostram arrancando os cabelos quando o grupo Brasil Trade tenta obter, de forma corrupta, a importantíssima “fórmula” de precificação. Ele escreveu que “a chave” para obter a fórmula era com o PR (Petrobras, Paulo Roberto Costa) e os aliados políticos da Brasil Trade.

      Sua alegria em obter o cobiçado algoritmo é evidente em uma mensagem de 7 de maio de 2010.  “Bom trabalho”, escreve ele. "Amigos, isso é um manjar dos deuses !!!"

      Ledu, pictured here in a police file, was delighted to obtain Petrobras's sensitive asphalt formula

      A Glencore admitiu fazer negócios com "Ledu", cuja foto policial é apresentada neste documento da polícia brasileira

      Andrade recebeu pagamentos pelo acordo da Sargeant Marine, ao lado de Costa e outros funcionários da Petrobras. O decano das propinas Jorge Luz e seu filho passaram pouco menos de US $ 292 mil para contas de Andrade nos EUA e na Suíça, segundo os registros judiciais. Andrade repassou US $ 168 mil para um alto funcionário da Petrobras que ajudou a Sargeant Marine a fechar seus contratos.

      As provas judiciais colocam Andrade no centro do acordo com a Sargeant Marine e seus pagamentos desonestos. Mas a Global Witness ficou intrigada com as vagas referências sobre a Glencore nas mensagens da Brasil Trade, por exemplo, a partir de dezembro de 2010: “Glencore: Assunto trazido por Luis [sic] Eduardo, ex-Glencore e amigo do Piquet (pres. Brasil) [nome de um representante da Glencore]. Não faz negócios há 1 ano e quer mudar interlocução.”

      Contatada pela Global Witness, a Glencore disse: “Nossa auditoria interna identificou um acordo com o Sr. Luis Eduardo Loureiro Andrade relativo à compra de uma carga de óleo combustível da Petrobras International Finance Co em 2011.” Andrade não respondeu a perguntas.

      Dada a evidência do envolvimento de Andrade no caso de corrupção da Brasil Trade, a Global Witness acredita que há motivos para investigar se ele fez pagamentos corruptos relacionados ao acordo de óleo combustível da Glencore.

       A Glencore disse que “está comprometida em manter as boas práticas empresariais éticas”. Contudo, como a Vitol, a empresa não lidou apenas com um intermediário subsequentemente exposto pelas autoridades brasileiras.

      Jogando batalha naval

      Entre 2010 e 2014, a subsidiária integral da Glencore, a Ocean Connect Marine, fez 121 pagamentos no total de US $ 2,1 milhões para Konstantinos e Georgios Kotronakis, outra equipe de pai e filho que tem grande participação na Lava Jato. Konsatinos Kotronakis, então cônsul honorário da Grécia no Brasil, está sob investigação criminal desde pelo menos 2017 devido a um gigantesco esquema de corrupção envolvendo companhias de navegação que transportavam petróleo para a Petrobras. As autoridades brasileiras não o denunciaram, nem a seu filho.

      Documentos judiciais solicitando mandados de prisão temporária e busca e apreensão detalham como esse esquema audacioso funcionou. No seu centro estava, mais uma vez, o diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa (o dos móveis ocos). Os documentos do tribunal detalham como, em troca de centenas de milhares de dólares, Costa passava informações privilegiadas para Konstantinos Kotronakis e seu filho sobre onde a Petrobras precisaria de tanques de combustível em seguida. Munidas desse conhecimento, as cinco empresas (na maioria gregas) poderiam “alocar navios em períodos e posições estratégicas, possibilitando, assim, vantagens competitivas em face de outros armadores”, disseram investigadores da polícia. A propina era equivalente a cerca de 3% dos contratos, inicialmente dividida em 40% para Costa, 20% para Konstantinos Kotronakis e o restante para outras partes, admitiu Costa em sua delação premiada.

      PP

      Propinas do esquema de transporte marítimo supostamente abasteceram o PP

      O montante em jogo era surpreendente. Em um período de cinco anos, quase US $ 900 milhões em contratos foram assinados entre as companhias de navegação e a Petrobras. Entre 2009 e 2013, a empresa de navegação grega Tsakos assinou contratos de US $ 786 milhões com a Petrobras, conforme registros da companhia petrolífera estatal. Enquanto isso, a Tsakos e seu intermediário passaram US $ 2,4 milhões para contas no exterior pertencentes a duas empresas - a Seaview Shipbroking, controlada pela família Kotronakis, e a GB Maritime, aberta em conjunto por Georgios Kotronakis e o genro de Costa, Humberto Mesquita. Essas mesmas empresas fizeram pagamentos regulares de quase um milhão de dólares para as contas de Costa na Suíça e em Luxemburgo. O próprio Costa admitiu que tudo ou quase tudo foi expressamente pagamento por informação privilegiada. A família Kotronakis estava envolvida no “pagamento sistemático de propinas e lavagem de ativos”, concluiu a força-tarefa da Lava Jato em um  documento judicial.

      Provas do tribunal indicam que uma parte foi para o Partido Progressista (PP) - um partido de centro-direita - por conceder a Costa a sua posição. Em meio aos arquivos do pen drive, há mensagens entre ninguém menos que o Decano das Propinas e seu filho, discutindo o envolvimento do PP nos negócios.

      Glen1

      Guardas de segurança tentaram impedir que a Global Witness filmasse o lado de fora do escritório da Glencore em São Paulo

      “As propinas do PP”, escreveu a força-tarefa, “são ainda mais censuráveis [do que as propinas aos funcionários da Petrobras], pois implicam indevida intromissão nas regras do jogo democrático”.

       Um advogado dos Kotronakis disse que, apesar de Konstantinos Kotronakis estar sob investigação, “nenhuma ação penal ou criminal foi realizada pelas autoridades brasileiras”. Georgios Kotronakis não está sob investigação, acrescentou.

      Em sua confissão policial, Paulo Roberto Costa admitiu ter recebido o pagamento dos Kotronakis em sua conta em Luxemburgo no banco suíço UBS, por repassar informações privilegiadas de 2010 ou 2011. O genro de Costa, Humberto Mesquita, que ajudou a administrar os pagamentos, fez uma declaração semelhante à polícia, descrevendo como ele e os Kotronakis montaram empresas e contas no exterior para canalizar os pagamentos. Mesquita disse que “entendia que era incorreto o fato de Paulo participar disso”.

      A Tsakos não fez nenhum comentário.

      Procurador: propinas eram "modus operandi" para o agente marítimo da Glencore

      Assim estabelecido o alegado funcionamento criminoso dos Kotronakis, chegamos aos US $ 2,1 milhões enviados pela subsidiária da Glencore, a Ocean Connect Marine, à empresa dos Kotronakis, Seaview Shipbroking. Esta empresa foi registrada nas Ilhas Marshall em janeiro de 2010 - apenas dez meses antes do início dos pagamentos. Em fevereiro de 2011, Georgios Kotronakis visitou o 20º andar da sede da Petrobras, onde consta no livro de visitas que ele estava representando a Ocean Connect Marine.

       A Glencore disse à Global Witness que a Ocean Connect Marine fez cinco vezes mais negócios com os Kotronakis do que consta nos documentos judiciais documentos judiciais. A empresa disse que “fez cerca de 600 transações com a Petrobras, onde a Seaview Shipbroking Ltd, uma empresa independente de corretagem de combustíveis marítimos, foi contratada”. A Seaview estava em um painel de corretores aprovado pela Petrobras para comercializar a venda de combustível naval nos portos brasileiros e “ajudar a Petrobras a garantir combustível naval para a frota de navios-tanque da Petrobras em portos fora do Brasil”.

       Enquanto a Glencore insiste que os Kotronakis tinham um sólido histórico de negócios, com grandes empresas como clientes, sua história ainda é um enigma. A Baltic Exchange (Bolsa do Báltico) em Londres - uma organização líder no comércio marítimo - confirmou que nenhum dos Kotronakis, nem as suas empresas, chegaram a ser membros. Isso é incomum para qualquer empresa de transporte com um escritório registrado no Reino Unido, como é o caso da Seaview.

      Seu histórico é ainda mais claro em se tratando de pagamentos duvidosos. Segundo documentos judiciais os Kotronakis pagaram bem mais de US $ 1,5 milhão para Costa e outros envolvidos da Lava Jato de sua conta no UBS de Luxembourgo: o próprio Costa; outro alegado lavador de dinheiro através de contas no Panamá e nos EUA; e pagamentos “criminosos” a outro gerente da Petrobras encarregado do fretamento e contrato de navios. O alegado lavador de dinheiro e o gerente da Petrobras estão sob investigação, disse um porta-voz da força-tarefa da Lava Jato.

       A Glencore negou o pagamento de propina, dizendo que não sabia que os Kotronakis “de fato pagavam propinas ou que os pagamentos da OCM [Ocean Connect Marine] eram usados para financiar tais subornos (muito menos que fossem pagos)”. Nem a Glencore nem seus afiliados sabiam que os Kotronakis "até pudessem estar pagando" subornos, acrescentou um porta-voz.

       “Nem as suas cartas nem os documentos que vocês anexaram apresentam evidências confiáveis de que uma entidade relacionada à Glencore conscientemente fez pagamentos corruptos, direta ou indiretamente.”

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      O "Relatório Beto" listou um pagamento de propina supostamente devido pela Glencore

      E tem mais. Logo após a prisão de Costa, em março de 2014, a Polícia Federal apreendeu um documento conhecido como "Relatório Beto" durante uma busca. Este relatório foi preparado pelo genro de Costa, Mesquita, para que o chefão da Petrobras pudesse acompanhar os subornos que chegavam a torto e a direito. Sob o título “Trading Glencore”, o montante de US $ 9.973 é listado, com uma indicação de que o dinheiro seria pago na conta de Costa no UBS em Luxemburgo. O próprio Costa declarou que “a empresa Trading Glencore era contratada pela Petrobras”, acrescentando que “não consegue se recordar a que título foi efetuado o referido pagamento em seu favor, mas que foi certamente decorrente de propina”.

       Mesquita disse em sua própria delação que a soma era relativa a um contrato de transporte organizado por Georgios Kotronakis. Ele afirmou que Georgios fechou o acordo "sem ajuda do Paulo", mas decidiu pagá-lo mesmo assim.

      Building

      A polícia fez buscas no escritório de Paulo Roberto Costa neste prédio, no Rio de Janeiro

      Os procuradores da força-tarefa da Lava Jato afirmam que o pagamento “evidencia que, nas contratações da Glencore intermediadas por Konstantinos Kotronakis e Georgios Kotronakis, era um modus operandi comum o pagamento de vantagens indevidas para empregados da Petrobras".

       Revisando as provas da Glencore nessa fase, os procuradores acrescentaram que “é alta, portanto, a probabilidade” de que os pagamentos da Ocean Connect Marine também pudessem ter sido usados, pelo menos em parte, “para corromper Paulo Roberto Costa e outros funcionários públicos da estatal”.

      Nenhuma acusação foi feita contra a Glencore ou qualquer um de seus representantes na investigação da Lava Jato.

      A Trafigura e o “Decano das Propinas”

      O filho rebelde da Glencore

      No final dos anos 1970, Claude Dauphin, um negociante de metal francês de vinte e poucos anos, juntou-se à presuntuosa empresa Marc Rich AG - os primórdios da Glencore - como gerente regional para a Bolívia. Ele rapidamente ascendeu na empresa, tornando-se um executivo importante, e não abandonou Rich quando este fugiu das acusações da justiça americana em 1983, acabando na lista dos Fugitivos Mais Procurados do FBI.

       Porém, após disputas de poder pelo comando da empresa, Dauphin renunciou em 1992, levando outros com ele para fundar a Trafigura. Os lucros estavam em torno de US $ 30 milhões por ano até 2000, mas assim como a Glencore e a Vitol, a empresa sediada em Genebra expandiu-se desde então. Os lucros de 2017 foram surpreendentes: US $ 2,2 bilhões.

       A Trafigura tem algo a mais em comum com seus rivais: o aparentemente inevitável flerte com escândalos. O episódio mais infame é o despejo de mais de meio milhão de litros de lixo tóxico em 2006 em aterros a céu aberto na Costa do Marfim, na África Ocidental.

       

      TRAF

      A Trafigura alcançou a infâmia por envio de lixo tóxico em 2006

      A Public Eye também publicou investigações revelando relações comerciais estreitas da Trafigura com um dos principais assessores do ex-presidente notoriamente corrupto de Angola, e como seus postos de gasolina africanos vendem combustível com “teor de enxofre centenas de vezes maior em relação aos padrões europeus”. Era tecnicamente legal, devido a normas nacionais permissivas, mas causou doenças respiratórias e morte prematura, disse a Public Eye.

       Os documentos judiciais da Lava Jato agora também levantam questões sobre a Trafigura no Brasil, especificamente o papel desempenhado pelos intermediários no relacionamento da Trafigura com a Petrobras.

       Para justificar a “detenção preventiva” dos intermediários do grupo Brasil Trade no ano passado, a Polícia Federal apresentou um dossiê comas evidências mais surpreendentes. Incluía documentos de autoria do Decano e de seu filho Bruno, atualizando Paulo Roberto Costa nas negociações em 2009, onde a propina é intrínseca ao negócio.

      “Proposta da Trafigura”

      Jorge e Bruno Luz estavam tramando embolsar uma parcela do valor obtido com o comércio de petróleo da Petrobras, estimado em 36,4 milhões de dólares por dia, segundo as evidências - e que para tanto planejavam um contrato de petróleo de 2 bilhões de dólares com a Trafigura.

       Divisões internas dentro da Petrobras impediram o acordo. Mas as aparentes negociações entre os Luz e a Trafigura estavam bastante avançadas antes de fracassarem - Jorge e Bruno Luz disseram que já haviam submetido o contrato de seus próprios serviços à Trafigura e estavam tentando desesperadamente fechar o negócio.

      Documents

      Documentos dos Luz mostram que eles planejavam levantar US $ 20 milhões em propinas de uma "securitização de petróleo". A Trafigura admitiu ter proposto o negócio

      O plano era fazer uma "securitização de petróleo", segundo o qual a Trafigura emprestaria fundos à Petrobras para serem pagos com um desconto nas vendas futuras de petróleo, disse um informante a par desses eventos.

       

      Apesar do forte apoio de Costa ao contrato, outros funcionários da Petrobras se opuseram a isso.

       

      "Por que deveríamos ir a uma empresa de commodities para levantar dinheiro?", disse a fonte, sob condição de anonimato. A proposta da Trafigura arriscou ser “uma transação muito cara do ponto de vista da Petrobras”. A explicação da fonte é consistente com as mensagens no documento judicial.

      Os documentos dos Luz também refletem como as receitas ilícitas do empréstimo seriam compartilhadas, com uma parte para o PP, aliado do PT no Congresso. A venda de 20 milhões de barris de petróleo geraria US $ 2 bilhões, dos quais 1% seria uma "comissão", o termo eufemístico de Jorge e Bruno Luz para propina. Destes, US $ 10 milhões foram destinados ao PP e àqueles que representam seus interesses.

      Contudo, uma das mensagens da família Luz - como de praxe escrita por Bruno, já que Jorge não sabia como usar um computador - revela que o esquema se deparou com problemas em uma reunião da diretoria da Petrobras.

       

      “Houve muitas críticas da diretoria financeira”, diz o resumo de janeiro de 2009. “Soubemos também que uma ala técnica do Abastecimento não está a favor”.

       

      Na reunião, os especialistas da Diretoria de Abastecimento fizeram uma apresentação que “aponta apenas desvantagens”, escreveram Jorge e Bruno Luz, dizendo: “Nossa preocupação é que o prazo para aprovação se estenda e que a proposta da Trafigura perca a validade.”

       

      “De nossa parte, já submetemos à Trafigura o contrato que irá nos garantir”, dizia a mensagem de Luz.

      Alargando a rede

      Jorge e Bruno Luz dizem que eles “acreditavam fortemente” que a oposição tinha vindo do “próprio Gabrielli”, referindo-se a Sergio Gabrielli, então presidente da Petrobras. Mas depois que o acordo não deu certo, Jorge e Bruno Luz não desistiram. Eles disseram em uma mensagem posterior que estavam "trabalhando junto à Trafigura" para outra proposta.

       A Global Witness se aproximou de Gabrielli em uma manifestação pró-Lula em São Paulo, para ouvi-lo dizer que ele só poderia discutir esses assuntos “em dez anos”.

      Gabrielli

      A Global Witness tentou questionar o ex-presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli (centro), em um evento em São Paulo

      A Global Witness enviou perguntas detalhadas ao PP, mas não recebeu resposta. O partido reafirmou em 2017 que "não compactua com condutas ilícitas". Quando a investigação contra o Vaccarezza foi lançada em 2017, o PT disse à imprensa que “o partido não tem informação sobre este processo".

       Em relação à evidência de ter discutido sua proposta para um empréstimo lastreado em petróleo, a Trafigura disse: “Contratos de pré-pagamento de commodities com produtores não são incomuns. Uma proposta para tal transação foi feita pela Trafigura para a Petrobras.”

       “Mas a proposta”, disse a Trafigura, “não resultou em um acordo sendo negociado ou concluído. Jorge e Bruno Luz são conhecidos lobistas políticos no Brasil. Esses indivíduos não foram contratados pela Trafigura em relação a essa proposta de pré-pagamento para a Petrobras ”.

      A empresa observou que “não estava a par das barganhas dentro da 'Brasil Trade'”, e que as informações nos documentos do tribunal “permanecem comentários e conjecturas ambíguas”.

      Sendo perguntada se Jorge e Bruno Luz faziam lobby em seu nome, e se lhes fosse prometida uma taxa de sucesso em vez de serem “retidos”, a Trafigura não fez esclarecimentos.

       A Global Witness apresentou vários pedidos de acesso à informação à Petrobras para a obtenção de cópia da proposta de empréstimo da Trafigura e a apresentação por especialistas dissidentes da Diretoria de Abastecimento. A Petrobras recusou os pedidos, dizendo: “Ademais, é de conhecimento da Petrobras que a empresa Trafigura vem sendo objeto de investigação da Polícia Federal, em inquérito Penal que tramita em sigilo, sendo certo que eventual fornecimento de dados relacionados a essa empresa pode atrapalhar as investigações em curso.”

       A polícia e os procuradores não confirmaram nem negaram que a Trafigura esteja sob investigação. A Trafigura também se recusou a comentar se estava sob investigação.

      Membro do conselho da Trafigura preso

      Embora o esquema de empréstimos não tenha dado em nada, é indubitável que um ex-membro do conselho da Trafigura - encarregado do desenvolvimento de negócios no Brasil e em Angola - seja um prolífico pagador de propinas. Mariano Ferraz foi condenado a mais de dez anos de prisão em março de 2018. Ele havia pago à Costa US $ 868.450 para obter um contrato de prestação de serviços de armazenagem e acostagem de navios para outra empresa da qual era diretor, a Decal do Brasil.

      Ferraz

      Na foto durante seu interrogatório por corrupção: o ex-executivo da Trafigura, Mariano Ferraz

      Embora a condenação de Ferraz por pagamento de propina não tenha relação com a Trafigura, sua prisão foi um episódio embaraçoso para a empresa, demonstrando o comportamento criminoso de uma de suas figuras internacionais mais importantes. Seu caso atraiu a atenção de um inquérito parlamentar sobre a Lava Jato. O inquérito apontou a importância de Ferraz para a empresa, dizendo que ele "subiu rapidamente na hierarquia da Trafigura, garantindo contratos em Angola".

       Quando Ferraz foi preso pela primeira vez em 2016, a Trafigura disse “não fazer parte do contrato entre a Petrobras e a Decal do Brasil e não ter um relacionamento comercial com a Decal do Brasil”.

      “Amadurecendo os frutos”

      Questionado sobre as alegações contra a Trafigura e a Glencore, Deltan Dallagnol, o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, disse que "são duas linhas de investigação que ainda estamos desenvolvendo".

       

      Prosseguiu: “Podemos comparar isso ao processo de maturação de frutos de uma árvore. Cada fruto tem um momento diferente no qual vai amadurecer e estar pronto para ser coletado. E a Lava Jato é uma investigação enorme.”

       

      “Somos apenas 20 procuradores que enfrentam mais de 450 advogados que apresentam petições diariamente”.

       

      As receitas dos recursos naturais de um país devem ser usadas no melhor interesse de seus cidadãos, e se os gigantes do comércio mundial estão trazendo intermediários obscuros para seus lucrativos negócios de petróleo, algo está indo mal.

       

      A Global Witness apela às autoridades do Reino Unido, EUA e Suíça a investigarem as negociações das traders de commodities durante o escândalo da Lava Jato, com vista a consolidar os esforços empreendidos pelas autoridades brasileiras. A investigação norte-americana anunciada este ano sobre a Glencore mostrou que uma luz pode ser lançada até nos cantos mais obscuros do mercado internacional de commodities. E ano Brasil, onde o escândalo da Lava Jato levou a uma instabilidade política e econômica sem precedentes, a clareza sobre o papel desses gigantes pouco conhecidos é urgente.

       

      *Desde que este relatório foi publicado, a Vitol contatou a Global Witness para dizer que: nega quaisquer alegados acordos com empresas na Nigéria identificadas como corruptas; seu contrato de petróleo em 2011 com a Líbia foi realizado com o pleno conhecimento de todas as autoridades relevantes; uma queixa contra ela e outros por parte do PDVSA US Litigation Trust foi declarada inconstitucional pela Assembleia Nacional da Venezuela; e um juiz na Flórida, em uma decisão interina de 5 de novembro, disse que o trust não tem legitimidade para apresentar uma queixa contra Vitol, recomendando que o caso seja julgado improcedente.

      Money Launderers Making a Splash

      Opinião: Por que a Global Witness está pedindo investigações

      A Global Witness acredita que há um claro risco de corrupção nos casos das três traders de commodities. Existe um risco inerente de pagamento de propina quando se emprega intermediários em negócios de petróleo; quando eles parecem ter um histórico de pagamento de propina, o que é mais flagrante ainda neste caso. As empresas de commodities têm aparecido em vários casos jurídicos e em escândalos de corrupção devido às suas negociações com operadores. O exemplo mais recente é uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o uso de intermediários da Glencore em três países: República Democrática do Congo, Nigéria e Venezuela. A investigação diz respeito a corrupção e lavagem de dinheiro, afirma a Glencore.

      A Global Witness vasculhou centenas de registros judiciais e conseguiu confissões importantes de todas as três empresas de commodities sobre suas transações no Brasil. Embora não haja provas incriminatórias, as evidências que ligam os intermediários das empresas de commodities ao pagamento de propina, reforçadas pelas delações de ex-dirigentes da Petrobras, fornecem razões contundentes para as autoridades prosseguirem com as investigações.

      Grande parte da evidência disponível até o momento vem dos intermediários, contra os quais os procuradores brasileiros apresentaram denúncias. As autoridades do Reino Unido, dos EUA e da Suíça devem exigir que as empresas de commodities divulguem o que sabiam sobre o comportamento de seus facilitadores e sobre como conseguiram fechar importantes contratos de petróleo no Brasil. As autoridades devem, portanto, investigar se os intermediários pagaram ou prometeram propinas para garantir negócios para a Glencore, a Vitol ou a Trafigura - e, em caso afirmativo, se as multinacionais estavam cientes disso. Existem vários sinais vermelhos quanto à atuação de cada uma dessas empresas de commodities, conforme detalhado no relatório.

      As traders de commodities têm a opção de fazer ou não negócios com intermediários. Multinacionais que podem prontamente recorrer à experiência de executivos e advogados do país para estabelecer contratos de petróleo parecem não ter necessidade dos serviços de intermediários.

      Opinion: Why Global Witness is calling for investigations

      Global Witness believes there is a clear bribery risk in the cases of all three commodity traders. There is an inherent bribery risk involved when employing middlemen in oil deals; when they appear to have a track-record of bribery, this is even more the case. Commodity companies have featured in several legal cases and corruption scandals because of their dealings with fixers. The most recent example is a US Department of Justice investigation into Glencore’s use of intermediaries in three countries: the Democratic Republic of Congo, Nigeria and Venezuela. The investigation relates to corruption and money-laundering, Glencore has said. Global Witness has combed through hundreds of court filings and wrung key admissions from all three commodity companies about their Brazilian dealings. While there is no smoking gun, the evidence that links the commodity firms’ middlemen to bribery, buttressed by the plea agreements from former top Petrobras officials, provide overwhelming reason for authorities to investigate further. Much of the evidence available to date comes from the side of the middlemen, against whom the Brazilian prosecutors have brought charges. Authorities in the UK, the US and Switzerland should demand the commodity firms disclose what they knew of their fixers’ behavior, and how they managed to secure valuable oil deals in Brazil. Authorities must therefore investigate whether the middlemen paid or promised bribes to secure business for Glencore, Vitol or Trafigura—and, if so, whether the multinationals were aware. For each of the commodity houses there are a number of red flags, as detailed in the report. The commodity traders have a choice to do business with middlemen. Multinationals that can readily call upon the expertise of in-country executives and lawyers to conclude oil deals would appear to have no need of the services of intermediaries.

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      Ed Davey, Investigative Journalist

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